Jornal Record - Suplemento Temático: Mascotes Desportivas

Jornal Record: Que elementos visuais e de conteúdo, deve conter a mascote de um clube de futebol, ou de uma sociedade anónima desportiva?

Álvaro Carrilho: 2 coisas: as características de diferenciação local e as conotações de ordem Comportamental.
Construir uma mascote é como desenvolver uma personagem de teatro ou de cinema, ou seja, desenhar o seu perfil físico e psicológico. A grande diferença consiste no objectivo da criação.
Enquanto objecto artístico, serve para a narrativa avançar com credibilidade. Em comunicação corporativa, ela serve para reforçar os temas base de uma missão.
Assim, um clube deve pesquisar os antecedentes culturais da sua região, fazer um levantamento dos tiques positivos das suas populações, dos defeitos dos seus oponentes e num processo de síntese chegar a um elemento personificável, ou seja, no final deve ser uma Entidade humanizada. Porquê? Para todos os valores inerentes à comparação podem ser adoptados e projectados no seu Público Alvo. No limite, pretendemos que no “efeito mascote” se desenvolva a dinâmica dos contos e das fábulas.


Jornal Record: O enfoque na criação de mascotes deve ser social, com objectivo no aumento do número de adeptos? ou contabilístico, tentando o aumento de receitas?

Álvaro Carrilho: Tecnicamente a mascote é um testemunho. Ou seja, um personagem faz de porta-voz de uma série de valores positivos para a Marca, empresa ou corporação. O jogo consiste basicamente em passar esta ideia: "Não somos nós que dizemos (a corporação), são os outros é que afirmam!”

A componente social das mascotes, no desenvolvimento da comunicação desportiva, tem a meu ver um papel de captação de dois Públicos Alvo importantes: O Infantil e o Feminino.
É um passo importante para se criar aquilo que em comunicação se chama "Good Will" - ou seja, um estado de espírito menos defensivo.

As Vantagens de utilização de uma mascote tem, a meu ver, 3 importâncias distintas:
Em primeiro lugar, enquanto um treinador de um clube tem a responsabilidade de abordar as temáticas relevantes de uma forma Racional (explicando decisões), o papel da mascote é o de valorizar os recursos de carácter emocional, (o amor, a fé, o desejo)

Em segundo lugar, a mascote deve conter a afirmação de valores culturais, éticos, políticos ou religiosos no desenvolvimento das suas características de personalidade.
Depois de compreendidos estes valores, a gestão de imagem tem de ser rigorosa, para evitar o aproveitamento por parte de grupos Para-clubisticos. O clube tem de controlar em absoluto tudo o que a mascote “diz”, para que bairrismos, xenofobia e outros comportamentos de teor negativo não assumam o comando da comunicação.

Por último a venda de Merchandising e Divulgação de Marca em territórios não publicitários (lojas de brinquedos, por exemplo)


Jornal Record: O processo de criação da mascote deve ser sujeita a discussão pública, ou desenvolvido por especialistas?

Álvaro Carrilho: Discussão pública - era paradigmático, quase como eleger numa democracia um ditador = nada do que FEITO PARA o público é FEITO PELO público (não vá ele fazer bem e depois temos o caldo entornado). Por especialistas - sim. O conceito por detrás de uma mascote tem obrigatoriamente de ter uma finalidade estratégica - embora o seu sucesso dependa de factores consensuais.
4. esta vertente do marketing social está atrasada em portugal face à europa e estados unidos? se sim, até que ponto?

Em termos restritos não. Temos boas mascotes - o GIL da Expo, o LUZINHA da EDP, e o Rei das Mascotes o grande caça patacas - PIRILAMPO MÁGICO!

Em termos mais genéricos sim, pois a mascote é um recurso que deve estar contemplado no plano geral de marketing, e na realidade ele aparece como um elemento isolado, dá a sensação de que alguém diz: "era giro termos um boneco", e a ideia surge numa espécie de comunicação estanque. No Marketing desportivo existem tradições que vêm de fora, e as coisas começam a ser mais elaboradas. Mas se formos ver, no desenvolvimento e RE-Style de marcas desportivas importantes em Portugal, as insígnias não trazem na sua linguagem gráfica o essencial do que poderá vir a ser a Mascote do clube. No caso do futebol americano, do Hokey no gelo, do Basquetball e do Baseball, já não é tanto assim. Em muitos casos, as insígnias já nascem com uma representação importante da mascote.


Jornal Record: Quem tem a ganhar com o desenvolvimento de mascotes nos clubes de futebol? o público, designers, clubes, publicitários, ou outros?

Álvaro Carrilho: Na minha opinião acho que todos, mas por razões diferentes, ou seja:

A meu ver existem três tipos de ganhos: Financeiros (para o Clube, Empresas de Comunicação, Fornecedores de brindes e para o mercado de retalho) depois vem o prestígio e notoriedade (para o Clube, as Claques, Adeptos, e também para as Empresas de Comunicação) e finalmente pela qualidade da Mensagem e capacidade Mobilizadora (e aqui os principais beneficiadores são o Clube e as Claques)


Jornal Record: Como se quantificam os ganhos e perdas neste sector?

Álvaro Carrilho: Pela adesão ao símbolo e pela consistência visual. A ver: Um dragão um leão ou uma águia, tem para determinado clube um formato visual definido (sim ou não?) ou a simples alusão basta para representarem genericamente uma categoria? O Rato Mickey não é um rato qualquer, de tal forma que, basta desenhar as suas orelhas para se inferir todo o significado simbólico.
Este é o nível de consistência necessário para deter direitos de autoria, e capacidade de controlar os canais de Merchandising (Brindes) e de Licensing (parcerias de utilização de imagem). Caso estas condições não se imponham, temos uma fragmentação de mascotes, de ganhos de contrafacção e de perca de verbas importantes para os clubes.

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Agosto 2003
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