Nasceram com
o objectivo de tornar as marcas mais humanas e de as aproximar dos seus
consumidores. Imagens fiéis dos produtos que personificam, as mascotes
deram sorte às suas marcas, dando a algumas uma elevada notoriedade
a nível mundial
Do fast food aos pneus para automóveis, passando pelos cereais
para pequeno-almoço ou electrodomésticos, muitas marcas
criaram figuras que não só personificam os seus principais
atributos como lhes dão uma elevada notoriedade a nível
mundial e os aproximam dos seus públicos-alvo.
A tarefa dos publicitários, ilustradores e cartoonistas do pós-guerra
era criar bonecos de cerâmica com que as marcas se identificassem.
A publicidade em televisão estava longe e esta foi a forma de dinamizarem
as marcas, num momento em que o consumo disparou. Uma das tendências
era insuflar vida aos próprios produtos. Assim apareceram tubos
de pasta de dentes com braços e pernas, as embalagens dos produtos
de limpeza da Procter & Gamble ganharam músculos de atleta
e os hamburgers da McDonald’s tinham boca e olhos. Foi nesta altura
que nasceram personagens tão famosas como Tony the Tiger, da Kellogg’s,
ou o Sony Boy, da japonesa Sony. Nos anos 50 começou a exploração
do packaging e a criação de mascotes nunca mais parou. Hoje,
e devido aos fortes investimentos que implica a sua criação,
estão em diferentes suportes, dando origem aos mais diversos materiais
de merchandising, transformando-se numa fonte de receitas. Imagens fiéis
das suas marcas, não há regras para a criação
de uma mascote. Apenas importa que a associação, entre a
personagem – seja imaginária, humana ou animal – e
o produto ou serviço, seja imediata.
Um dos melhores exemplos desta estratégia de comunicação
é o Ronald McDonald, o palhaço introduzido pela McDonald’s
em 1963, que tinha por objectivo ser um meio de comunicação
da empresa com o target infantil. Hoje a identificação entre
a McDonald’s e a sua mascote é imediata e Ronald funciona
como o embaixador da marca junto das crianças, desdobrando-se em
espectáculos, na animação dos restaurantes ou na
dinamização das casas com o seu nome. Esta figura nasceu
no restaurante de Oscar Goldstein, um franchisado de Washington, que pediu
a uma agência de publicidade local para desenvolver a personagem.
A partir daí multiplicou-se e viajou para todos os restaurantes,
nos quatro cantos do mundo, e o seu nome deu origem à fundação
Ronald McDonald, uma instituição de solidariedade social
dirigida às crianças.
Com longas orelhas e uma energia imparável, o coelho das pilhas
Energizer e da sua concorrente Duracell é considerado por muitos
marketeers como uma mascote genial. Tudo porque é o exemplo real
do principal benefício do produto – pilhas de longa duração
–, que demonstra de forma inovadora (e imparável). Daí
que Mark Larsen, o responsável pela comunicação da
Energizer, não tenha dúvidas em afirmar que «o coelho
transformou-se no símbolo último da longevidade, perseverança
e determinação». A criação desta figura
pela Chiat/Day em 1989 surge no seguimento de uma campanha publicitária
desenvolvida pela DDB Needham Worldwide para a Energizer. Por sua vez,
o coelho da Duracell já tem cerca de 15 anos. Como explica Andrea
Fontes, responsável pelo marketing da marca, «optou-se por
um coelhinho pelo facto de se tratar de um brinquedo, o que dá
vida a um ambiente que normalmente é bastante técnico. Por
outro lado, e como se pode observar na publicidade da Duracell, o coelho
apresentava uma performance sempre superior aos outros coelhos, por forma
a evidenciar a maior durabilidade das pilhas Duracell». A luta entre
as duas gigantes das pilhas pelo uso do coelho como mascote obrigou a
uma separação dos mercados: nos Estados Unidos é
usado pela Energizer, porque foi a primeira a utilizar a imagem, e na
Europa é usado pela Duracell, porque aconteceu o inverso.
O coelho também foi o animal escolhido nos anos 70 pelo Nesquik
para sua mascote. Apesar do produto tornar o leite mais agradável
ao paladar das crianças, era preciso algo fun, que tivesse um significado
para eles, falasse a sua linguagem e tivesse as suas atitudes. Por isso
nasceu o Quicky, um coelho com personalidade própria: vivo e dinâmico,
divertido, com um entusiasmo contagiante, generoso, aventureiro, cheio
de recursos e apaixonado por Nesquik. Como explica Luís Ferreira
Pinto, responsável pelo marketing de misturas, sucedâneos
e achocolatados da Nestlé, «o Quicky constitui uma forte
vantagem competitiva como elemento diferenciador da marca. Graças
aos elevados investimentos em comunicação e à coerência
e consistência da mesma, tem-nos permitido construir uma mascote
mundial». Até 1989 a mascote da Nesquik para o mercado português
era o canguru Cangurik. Entretanto, concluiu-se que para o desenvolvimento
mundial da marca seria necessária uma abordagem uniforme e consistente.
Daí que todos os mercados tenham adoptado o Quicky como o spokesman
da marca. «Esta alteração permitiu não só
elevadas sinergias internacionais na comunicação como também
uma consequente redução de custos de produção
média e promocional», afirma Luís Ferreira Pinto.
O Bibendum, também conhecido como “o homem da Michelin”,
foi criado em 1898 por Edouard Michelin, irmão do fundador da marca.
Esta mascote nasceu quando Edouard observou uma série de pneus
amontoados e se apercebeu de que tinham uma forma humana. Explicou a ideia
ao criativo O’Galop, e este desenhou o famoso homem feito de pneus.
Numa primeira fase, esta figura aparecia com um copo de cerveja na mão
e dizia “agora é tempo para beber” (Nunc est bibendum),
o que dava corpo ao slogan usado na altura “Os pneus Michelin engolem
todos os obstáculos”. Com o desenvolvimento da marca, o Bibendum
apareceu em tampas de radiador, bonecos de borracha, bombons e até
em brindes de bolo-rei. Mais tarde ganhou vida e saltou dos cartazes para
a rua, com a criação dos fatos Bib e acções
de animação. Estando a comunicação a cargo
da DDB Needham Worlwide, o Bibendum foi sofrendo alterações
até chegar à figura actual, mais elegante, flexível
e alegre, transmitindo uma imagem de vitalidade e moderna. É uma
das mascotes mais antigas e reconhecidas em todo o mundo, e representa
a Michelin em mais de 150 países.
Sob o tema “Zoo”, a ideia da Leo Burnett era distribuir diferentes
figuras nas embalagens de cereais Kellogg’s. Tony era uma das quatro
figuras criadas para promover o novo cereal da marca, que começou
a ser comercializado em Julho de 1952, mas depressa se tornou mais conhecido
que o canguru Katy, o gnu Newt ou o elefante Elmo. No ano seguinte transforma-se
no porta-voz da marca e faz a primeira aparição num anúncio.
O seu primeiro desenhador, o ilustrador de livros infantis Martin Provinsen,
criou um gato cor-de-laranja com riscas pretas e nariz azul. Mas, tal
como todas as celebridades, com o tempo Tony sofreu várias alterações
cosméticas. A primeira grande mudança aconteceu logo no
início da sua carreira, em que a cabeça ganhou um formato
mais redondo. Depois foram os olhos que mudaram de cor, de verde para
dourado. Quando os norte-americanos se começam a preocupar com
a sua forma física, Tony também fica mais elegante, musculado
e alto. Só a voz é que permanece inalterada. Um ano depois
do seu aparecimento nas embalagens de cereais, cria-se a família
de Tony, o que permite à marca alargar o seu target. O primeiro
foi o filho, a que se seguiram a mulher de Tony e a filha Antoinette,
já na década de 70. Com o passar dos anos, também
a sua personalidade mudou, tornou-se mais humano e ganhou o papel de educador
das crianças sobre nutrição. Sendo o embaixador da
companhia, com as crianças desempenha o papel de companheiro mais
velho, e é percepcionado pelos adultos como um amigo de longa data.
Nos anos 50 a Sony quis impor-se no mercado ocidental mas teve de passar
por uma prova de fogo junto dos consumidores: mostrar que os seus produtos
tinham tanta qualidade como os fabricados no Ocidente. E assim nasceu
o Sony Boy, um rapaz comum, com traços ocidentais, que vestiu a
camisola da marca até alcançar os seus objectivos.
Sabendo que os cães são o melhor amigo do homem, várias
marcas optaram por este animal para lhes servir de mascote. Um deles é
o fox terrier branco da marca fonográfica RCA, que tem o ouvido
colado a uma grafonola. O outro é o bassett da Hush Puppies: um
cão bonito e que se movimenta sem fazer barulho. Tudo o que os
sapatos da marca pretendem ser.
Processo criativo
Hoje, esta estratégia ainda é muito utilizada pelas marcas
como forma de comunicarem o seu posicionamento ou de estabelecerem uma
relação mais próxima e emocional com os consumidores.
Mas agora têm mais uma função: gerar lucros com o
merchandising, e a mascote do Toys ‘r’ Us – o Geofrey
– é um bom exemplo disso.
«Se conseguirmos casar a mascote com o produto isso é perfeito»,
afirma José Carlos Campos, director criativo da TBWA/EPG, e dá
o exemplo da marca de queijo La Vache Qui Rit, como o casamento ideal
entre a personagem, o produto e o target a que se dirige.
Nem todos os criativos são a favor da criação de
mascotes. «A mascote pode ajudar quando queremos perpetuar uma marca
ou conceito e o seu posicionamento. Na maioria dos casos não funciona.
A mascote implica investimentos muito grandes, tem de estar com regularidade
no ar, senão esquece-se», afirma José Carlos Campos.
É devido aos fortes investimentos exigidos que este criativo não
recomenda o recurso a uma mascote, que também considera um entrave
à criatividade.
Surgindo quase sempre de forma espontânea no processo de comunicação,
antes de se lançar na criação de uma mascote, a marca
deve avaliar, não só o orçamento, mas também
se a sua introdução faz sentido no processo de comunicação
seguido até aí. Os passos seguintes são testar a
personagem e toda a comunicação (tanto above como below
the line) junto do consumidor. O director criativo da TBWA/EPG recomenda
até que o processo seja ao contrário, partindo do above
para o below the line. Depois, há que explorar a mascote ao máximo:
em campanhas publicitárias, promoções, acções
de marketing directo, na embalagem, no site da marca e no próprio
ponto de venda. No entanto, Judite Mota, directora criativa da Bates Portugal,
considera que não faz sentido usar a mascote em todos os suportes
promocionais. Mas acrescenta que, no caso de uma marca que segue uma política
de patrocínios, fará sentido ter uma mascote para com ela
marcar a sua presença nos eventos.
O super-herói da Império
A seguradora Império criou uma mascote – o Impy – para
comunicar com o público interno. Como explica Judite Mota, directora
criativa da Bates Portugal, a agência de publicidade que tem a conta
da seguradora, a mascote tinha de transmitir os valores da Império:
alegria, solidariedade, competência e integridade. Foi com base
nestes quatro core-values que nasceu a figura do super-herói. E
tudo porque um super-herói transmite tanto alegria como segurança,
simbolizando ao mesmo tempo os trabalhadores da Império e os valores
que os clientes procuram numa seguradora, que se torna mais afectiva.
Já presente no site da empresa, o Impy será também
mais uma forma de comunicar com o público externo, em especial
com o target infantil.
Associação imediata
A associação entre a mascote e a marca que representa deve
ser imediata. Um bom exemplo é Ronald McDonald, que se transformou
no embaixador da McDonald’s junto das crianças. Pelo contrário,
o coelho está dividido entre a Energizer e a Duracell
Consumo afectivo
Cada mascote tem uma função,de acordo com os objectivos
da marca que personifica. E o facto de serem bonecos não significa
que se dirijam apenas ao target infantil. O Bibendum e o Sony Boy dirigem-se
ao público adulto, o Quicky nasceu para falar com as crianças
e o Tony the Tiger, da Kellogg’s, é o companheiro tanto de
miúdos como de graúdos
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