Faço
questão de ver portfólios de quem está comecando
em publicidade. Porque também já fui iniciante e um dia
alguém teve saco para me atender.
Tenho essa dívida com a profissão. Mas nesses anos todos
já entrevistei todo tipo de maluco, de megalomaníaco, de
desavisado, e posso garantir uma coisa: não é mole. Alguns
candidatos se mostram tão perdidos quanto o tempo que a gente dedica
a eles.
Só que de vez em quando aparece um talento real
que faz todo o esforço valer a pena.
E foi assim, analisando centenas de portfolios, em horários que
muitos workaholics já estão de pijaminha, que percebi como
os candidatos a estágio cometem erros bobos e desnecessários.
Não é culpa deles. Publicidade é uma profissão
diferente, que não se encaixa nas regras comuns do "como começar".
Tem seus próprios macetes. Este Manual do Estagiário foi
feito para ajudar quem está iniciando nessa área tão
competitiva. É também, confesso, uma tentativa de melhorar
os meus finais de expediente.
O Manual do Estagiário não tem a pretensão de ser
um curso de redação, direção de arte ou coisa
parecida. É apenas um pequeno guia de etiqueta. Como se comportar
à mesa - principalmente à mesa do Diretor de Criação.
Não tentei esgotar o assunto. Foi o que deu para escrever entre
uma campanha e outra. Se você tiver dúvidas, críticas
ou sugestões, mande seu e-mail para mim. São apenas opiniões.
Por favor, não acredite cegamente. Não leve ao pé
da letra. Não transforme em dogmas. Existe a real possibilidade
de que eu esteja enganado. Eu nunca fiz estágio.
MANUAL DO ESTAGIÁRIO
(Ou, para ficar na moda, "A Inteligência Emocional do Estagiário
de Propaganda.")
Conseguir estágio em agência é quase tão difícil
quanto arrumar vaga de astronauta na Nasa. E a vida dos astronautas é
mais fácil, porque o Universo é infinito, enquanto as boas
agências são pouquíssimas. Portanto, não bobeie
e muita atenção ao Primeiro e Fundamental Mandamento
do Candidato a Estagiário.
PRIMEIRO E FUNDAMENTAL MANDAMENTO DO CANDIDATO A ESTAGIÁRIO:
Não seja mala (nota da umovoacavalo: "chato").
A menos que você queira um estágio na Samsonite. Propaganda
é um mundinho pequeno, uma área onde todos se conhecem.
Se o rótulo de "mala" grudar em você e se espalhar,
você estará acabado antes de começar.
JÁ PREPAREI MEU CURRÍCULUM VITAE. E AGORA?
Agora você joga o currículo fora. Lembre-se que uma árvore
precisou morrer a golpes de machado antes de desperdiçar uma valiosa
folha de celulose com currículos. Não servem para bsolutamente
nada. Aliás, fico me perguntando por que alguém acha que
se dizer "experiência em Cobol e dBase" vai adiantar alguma
coisa.
Alguns são mais espertos e se tocam que currículos normais
são inúteis, mas resolvem o problema do jeito errado: tentam
fazer "currículos criativos". Mandam o currículo
dentro de latas, escritos em papiros, através de telegramas falados
etc, etc, e etc. Não funciona. Simplesmente porque nada disso prova
que você é capaz de fazer um bom anúncio ou filme.
Eu me lembro de alguém que diagramou o currículo como se
fosse um rótulo de bebida, colou numa garrafa de vinho e mandou
para um Diretor de Criação. Eu trabalhava para ele e perguntei:
que tal o currículo?
Ao que ele respondeu: "nacional".
O que resolve é portfolio com anúncio bom.
Crie uns 5 anúncios maravilhosos, coloque num portfolio e pronto,
a vaga é sua. Se não houver vaga, não tem problema:
a qualidade do seu trabalho vai criar a vaga na hora. Simples, não?
Simples nada.
PREPARANDO O PORTFOLIO
Idéia boa é idéia boa em qualquer lugar, mas uma
apresentação razoável sempre ajuda. Se quiser, você
pode comprar um portfolio profissional no Omar
Olguin, que é o mais conhecido. O telefone do Omar é
(0xx11) 3865-3221 ou Fone/Fax.: 3862-7147, e o endereço www.omar.srv.br
(não estou ganhando nada pelo merchandising. Se você souber
de outros bons fabricantes, escreva-me que incluirei aqui).
Coloque na pasta somente peças onde a sua participação
foi importante, decisiva ou majoritária. Se você só
fez o texto e o título é de outro redator, avise antes que
perguntem.
O portfolio deve ser a última trincheira da moralidade. Uma pequena
picaretagem aqui e você está queimado. E pode acreditar:
mais cedo ou mais tarde (geralmente mais cedo) tudo se descobre.
Como eu já disse, propaganda é um mundinho.
Cuidado com a pasta folclórica. Toda pasta de estagiário
tem alguma campanha para camisinha(nota da umovoacavalo: "preservativo").
É compreensível, já que este é um tema legal
e tem um briefing conhecido. Mas já está manjado. Além
do mais, este tipo de campanha é uma exceção no dia-a-dia
da agência, que é feito de sabonetes, sabões em pó
e pastilhas para freio.
Pega bem criar anúncios para produtos reais e não apenas
para boas causas. Lembre-se que agências precisam dar lucro. E eu
presumo que você não aceite ser pago em camisinhas (ainda
que você aceite, não vai ter muito tempo para usá-las).
Você já ganhou um prêmio? Ótimo, parabéns,
mas não precisa colocar o diplominha na pasta. É forçada
de barra, do tipo "Eu ganhei prêmio com este anúncio,
você vai ter coragem de não achá-lo genial?"
O profissional que vê pastas (nota da umovoacavalo: "portefólio")
em geral já tem um critério desenvolvido e sabe avaliar
as peças independentemente de sua performance em premiações.
Se ele tiver critério, o tal diploma é desnecessário.
Se não tiver, para quê você quer estagiar com ele?
A IMPORTÂNCIA DO PRIMEIRO ANÚNCIO.
O primeiro anúncio da pasta é o que rotula e classifica
você. É a famosa primeira impressão. Se o primeiro
anúncio for bom, os que se seguirem vão apenas ter que reforçar
isto. Se for ruim, caberá aos outros a hercúlea tarefa de
reverter uma má impressão inicial. Viu a responsa? Viu a
diferença? Carinho com o primeiro anúncio.
Idealmente, o primeiro anúncio deve produzir a seguinte sensação
em quem vê a pasta: "Epa! Aqui tem coisa. Deixa eu ver se tem
mais". Peça opinião de colegas, promova uma votação
secreta na sua casa, pergunte ao zelador do prédio, mas não
erre no primeiro anúncio.
A ORDEM DOS FATORES ALTERA A PROPOSTA.
Minha sugestão de como montar um portfolio que impressiona é
o seguinte:
Comece dispondo os seus anúncios numa fila crescente de qualidade.
Primeiro o meia-boca, por último o melhor deles:
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.
Depois, pegue o último (o melhor) e coloque na frente de todos:
10, 1, 2, 3, 4, 5, 6 ,7, 8, 9.
Está pronta a pasta: um grande anúncio abrindo - e em seguida
um crescendo de qualidade. Naquela bolsinha lateral, você põe
os discutíveis e polêmicos. E só os mostra se for
necessário ou se houver clima para tanto.
PEÇAS POLÊMICAS E OUTRAS ESQUISITICES.
Regra: o que é consenso vem primeiro, o que é discutível
e polêmico, só no final. Não fui eu quem inventou
isso. Esta é uma regra básica de retórica. Tanto
que ninguém começa um discurso com "Sou a favor da
pena de morte". Em geral, começa-se com pontos em que todos
concordam, tais como "É preciso diminuir a violência".
No portfolio é a mesma coisa: só depois de "ganhar"
quem está vendo a pasta, é que você pode arriscar
e mostrar aquela peça que 9 entre 10 pessoas acham que é
delírio. E principalmente quela peça que é igualzinha
a uma outra que está no anuário, mas que você jura
ter feito primeiro. Pois ó depois de ver vários anúncios
bons seus, só depois de estar convencido de que você tem
realmente talento, é que existe a chance de que alguém acredite
na coincidência. Anúncio chupado no começo da pasta,
ainda que involuntariamente, é filme queimado na certa.
Aliás, isso merece um parágrafo.
PARÁGRAFO:
Uma das coisas mais chatas que podem acontecer a quem está começando
é o "plágio retroativo": um belo dia, sai na Veja
um anuncio igual ao que você fez faz tempo, mas não saiu.
Como você ainda é desconhecido, vão pensar que o SEU
é plágio. É duro, mas nestes casos, não há
muito o que fazer. É mais negócio tirar da pasta. Você
vai ter que dar tantas explicações que não vale a
pena.
E FINALMENTE:
Além de todas essas preocupações, não se esqueça
de colocar uns 5 ou 6 anúncios indiscutivelmente geniais na pasta.
Costuma funcionar.
COMO É QUE EU ESCOLHO UMA AGÊNCIA?
Pelo dono da agência. Uma agência sempre tem a cara do dono.
Os valores e prioridades do dono permeiam toda a estrutura. Assim como
também é a identificação com estes valores
que atrai clientes e profissionais parecidos.
Logo, se você é de criação, vai se sentir muito
mais realizado se procurar agências cujo dono seja de criação.
Certamente serão agências onde a criação vai
ter mais peso e mais voz que, por exemplo, numa agência de mídias.
Mas não siga esta regra cegamente. A Talent, uma das agências
mais sistematicamente criativas do país, pertence a um profissional
de Planejamento (vá lá, ele foi redator em início
de carreira).
Mas se você tiver a sorte de conseguir um estágio lá,
não seja louco de desperdiçar.
NÃO, EU NÃO ESTOU EM CONDIÇÕES DE FICAR ESCOLHENDO.
PELO AMOR DE DEUS, ONDE HÁ VAGAS?
Um dos grandes problemas das boas agências é que elas são
boas. Quem está lá quer continuar. Passam cola nas cadeiras
e sentam em cima. Por isso, não é toda hora que aparecem
vagas para emprego ou estágio.
Agências que conseguem criar um bom ambiente para a criação
têm equipes estáveis. W/Brasil e Talent têm os menores
"turnover" do mercado. AlmapBBDO e F/Nazca idem. Mesmo agências
que já foram famosas pela volatilidade de suas equipes andam mais
calmas, pelo menos para seus próprios padrões.
Então, fique de olho em agências novas e ainda pequenas,
mas com bom potencial de crescimento (isto é, com gente talentosa
no comando). Basta uma delas ganhar conta grande para que se veja obrigada
a aumentar substancialmente a equipe.
Mas o principal filão mesmo são agências que acabaram
de mudar o Diretor de Criação.
Diretor de Criação recém chegado não costuma
deixar pedra sobre pedra da equipe anterior.
Tente lá. Ou descubra de onde ele está tirando as pessoas
- e tente cobrir as vagas abertas.
Evidentemente, trocas de Diretor de Criação são raras
nas agências cujos donos são, eles próprios, diretores
criativos. Óbvio: não iriam trocar a pessoa que eles mais
amam no mundo.
DURANTE A ENTREVISTA: COMPORTE-SE. VOCÊ ESTÁ SENDO
OBSERVADO.
As pessoas olham as pastas, mas contratam pessoas. Comporte-se. Se você
já está em alguma outra agência, não fale mal
das pessoas de lá. Vão adorar ouvir as fofocas, mas não
vão confiar em você.
Não fique tentando explicar, contextualizar as peças. Deixe
o portfólio falar por si próprio. Anúncio que precisa
de explicação é, em princípio, anúncio
ruim. Além do mais, ninguém consegue ler um texto com alguém
do lado matraqueando sem parar. Lembre-se do primeiro e fundamental mandamento.
Não seja porfolio-sem-alça.
Não seja presunçoso. Provavelmente você ainda não
é tão bom quanto pensa. E, ainda que seja, talvez não
seja o suficiente. A concorrência hoje em dia, entre estagiários,
está assustadora. Um dia surgiu uma vaga numa agência em
que eu trabalhava. Pensa que o pessoal veio com idéias rabiscadas
em papel almaço? Nada disso. Profissionalíssimos. Lay-outs
de computador. Portfólios em CD-ROM. Um dos canditados tinha até
filme concorrendo em Cannes. E não levou a vaga.
Tenha sorte de ser a pessoa certa na hora certa no lugar certo. Eu não
sei onde se compra isso, mas arranje.
MOSTREI A PASTA PARA TODO MUNDO E NÃO CONSEGUI NADA.
Você é que pensa que não conseguiu nada. Conseguiu
sim: a esta altura, seu critério já está mais apurado.
Depois de passar por um monte de gente, você já descobriu
quais são os anúncios realmente bons, quais os meia-boca,
etc. O pessoal diverge um pouco, mas o que é muito bom e muito
ruim aparecem claramente. Isso vale ouro.
Aproveite para ir promovendo ajustes na pasta.
O que dá origem a uma subdica: não cole as peças
com adesivo muito forte. Colar e descolar vai ser um exercício
constante.
Cuidado também com as peças xerocadas (nota da umovoacavalo:
"fotocopiadas"): elas soltam um pó que gruda no
acetato da pasta, estragando o portfolio. Se não der para evitar
a xerox, experimente jogar um spray fixador nelas. Não resolve
de todo, mas ajuda.
Nunca deixe o porfolio no carro: o calor deforma completamente o acetato.
E se levarem o veículo, além do seguro não cobrir,
ainda existe o risco de o ladrão fazer carreira com as suas idéias.
Pensando bem, isso já deve ter acontecido muito.
NÃO ME ENROLA: MOSTREI A PASTA PARA TODO MUNDO E NÃO
CONSEGUI NADA.
Uma pasta inteiramente renovada - e, de preferência, levando em
consideração todos os conselhos que você recebeu no
primeiro périplo que fez - é a melhor desculpa para conseguir
uma segunda chance. Pasta igual, sem novidade, nem pensar.
Por outro lado, um jeito simpático de se fazer lembrar, sem amolar
ninguém, é mandar pelo correio, para pessoas que você
já visitou, uma versão xerocada e reduzida do seu portfolio.
Com nome, telefone e um bilhete curto. Se pintar uma vaga no futuro, pode
ser que se lembrem de você.
CONSEGUI O ESTÁGIO. E AGORA?
Sabe o primeiro e fundamental mandamento do candidato a estagiário?
Também é o primeiro e fundamental mandamento do estagiário:
não seja mala.
O departamento de criação é lugar sem paredes, onde
as pessoas têm que conviver entre si 12 horas por dia. Ou seja,
inconvenientes incomodam.
Publicidade é uma profissão em que as pessoas têm
que se expor muito, falar e propor muita bobagem, então elas preferem
trabalhar com gente em quem possam confiar. Seja legal. Ou finja que é.
Depois que você virar dono de agência, aí pode ficar
intragável à vontade.
Não defenda excessivamente um trabalho recusado. Gente que se agarra
demais a uma idéia é porque deve ter poucas. Confie nos
mais experientes. Você pode até ter mais talento que eles.
Mas, nesse ponto da sua carreira, eles provavelmente sabem usar o seu
talento melhor que você.
Não discuta, não argumente demais, não pondere e,
sobretudo, não comece frases com "Veja bem". Se mandarem
você refazer, refaça. Por quê? Leia o segundo e fundamental
mandamento do estagiário.
SEGUNDO E FUNDAMENTAL MANDAMENTO DO ESTAGIÁRIO:
Resolva problemas e suba. Crie problemas e suma.
O primeiro produto que você vai ter que vender é você
mesmo. Seu consumidor, no bom sentido (ou no mau, a vida é sua)
é o Diretor de Criação. E você só será
um produto útil, desejado e valorizado se resolver problemas para
ele.
Vamos analisar mais detalhadamente esta criatura:
O Diretor de Criação é um ser atormentado com pressões
de todos os lados. A diretoria pressiona por faturamento, o atendimento
pressiona por prazos, o cliente pressiona por custos e, às vezes,
por uma visão criativa própria. A equipe de criação
pressiona pela aprovação daquela campanha que vai dar prêmio.
Isso sem contar a pressão que ele sofre do próprio ego,
por estar cada vez mais envolvido com atividades executivas e menos com
Criação.
Diariamente, toda sorte de pepinos aterrissam na mesa dele, travestidos
de "Pedidos de Criação".
Alguns desses pepinos ele vai repassar para você. Se você
souber descascá-los com competência, rapidez e, ainda por
cima, com brilho, você terá no Diretor de Criação
um homem eternamente grato. A simples idéia de perder você
para outra agência vai tirar o sono dele.
Por outro lado, se em vez de levar soluções, você
for um pepino ambulante, você não serve. Se o diretor de
criação tiver que perder mais tempo com você do que
perderia fazendo ele mesmo o trabalho, você é apenas um estorvo.
Tema pelas sextas-feiras, dia em que tradicionalmente as agências
se livram dos chatos.
Quanto mais rápido e talentoso for o Diretor de Criação,
mais cuidado você vai ter que tomar com o precioso tempo dele. Se
ele resolve com um pé nas costas aquilo que você enrola uma
semana, o próximo pé dele pode ser nas suas costas.
Acredito que essa dica vale para a vida inteira, não importa se
você é estagiário, junior, senior ou seja lá
o que for.
E COM O RESTO DO PESSOAL?
Principalmente, seja humilde. A arrogância inibe opiniões
sinceras. Você vai receber respostas diferentes se perguntar "o
que você acha deste título?" no lugar de "não
é genial este título?"
ANUÁRIOS DO CLUBE DE CRIAÇÃO
Os anuários do Clube de Criação de São Paulo
são o registro daquilo que a propaganda brasileira produziu de
melhor nos últimos anos. Leia, releia, decore cada um deles. Ajuda
muito, em pelo menos três aspectos:
a) você aprende,
sem perceber, como dar forma às idéias. O estagiário
de talento é alguém que já tem boas idéias,
mas se perde na formulação. Os anuários são
um prato cheio delas. Algumas, de tão gastas e repetidas, já
viraram fórmulas,truques. Mas sempre ajudam.
b) você vai encontrar, provavelmente, muita coisa do seu Diretor
de Criação e do pessoal da agência nos anuários.
É um jeito de você saber com quem está lidando.
Se são talentos genuínos ou apenas metidos à besta.
Se são pessoas em quem vale a pena grudar.
c) evita que você crie coisas geniais, maravilhosas - mas que
já foram feitas.
Embora o anuário
mais recente custe uma nota, os mais antigos costumam ser uma pechincha.
O Clube tinha um bom estoque dos anuários antigos para venda mas,
modéstia à parte, depois de dada a dica aqui, está
quase tudo esgotado. Se você correr, ainda encontra algumas edições.
Aproveite. Como dizem as escolas de computação, o curso
é grátis, você só paga o material didático.
O telefone do Clube de Criação de São Paulo é
(0xx11) 3030.9322. Ligue e diga que você leu a dica na minha página.
Você não vai ganhar nenhum desconto por isso, mas eu vou
ficar com a maior moral lá.
CULTURA GERAL.
Vire-se para arranjar. Mas o ideal é que você já tenha,
e bastante. Porque depois de entrar numa agência competitiva você
não vai ter, infelizmente, muito tempo para ir a cinema, ler, viajar
etc.
Então, é indispensável que você já tenha
acumulado uma boa cultura geral, seja através de vivência,
seja através de livros, etc. Imagine que você é uma
bateria. A cultura é sua carga, carregada a vida inteira. O processo
de criação exige que você gaste esta carga - e sem
muito tempo para recargas. Se você é uma bateria fina, vai
se esgotar logo. Tomara que você e seus pais tenham investido na
sua educação. Senão, esqueça. Vá ser
Dee-Jay.
CULTURA INÚTIL.
Se você já se perguntou algum dia para que serve a famosa
cultura inútil, eu respondo: para fazer propaganda.
É impressionante o que isso rende. Um dia, li uma notinha sobre
um homem que criava um leão no quintal e que esse leão havia
sido roubado. Virou texto de anúncio de seguradora: "Se os
assaltantes não têm medo nem de leão, você acha
que um cão de guarda vai defender seu patrimônio? Faça
um seguro etc" E por aí vai. Fatos dão sabor e consistência
a qualquer argumentação. E propaganda, lembre-se, é
argumentação embrulhada para presente.
ESPERA AÍ: ESTE MANUAL É SÓ PARA ESTAGIÁRIO
DE CRIAÇÃO. EU QUERO ESTAGIAR EM ATENDIMENTO.
É verdade. Desculpe não ter avisado antes. E quer ouvir
outra má notícia? Apesar da Criação ser a
área mais desejada e procurada, entrar em Atendimento é
mais difícil ainda. Por quê? Porque não existem parâmetros
objetivos para avaliar o talento do iniciante nessa área.
Querendo Criação, você faz um portfolio e mostra.
Mas, querendo Atendimento, vai mostrar o quê? Sua habilidade em
dar nós Windsor na gravata? Acho que a seleção de
estagiários em Atendimento acaba sendo meio na base do feeling,
da química. Resta a você tentar uma entrevista com alguém
da área, dizer que os deslumbradinhos adoram criação,
mas você que é sensato gosta mesmo é de Atendimento
- e torcer para irem com a sua cara. É difícil e imprevisível.
Mas, pensando bem, essa dificuldade inicial é justa: afinal, para
você que um dia vai estar convencendo clientes a aprovar campanhas
que custam milhões de dólares, convencer alguém a
comprar um estagiário bom e baratinho vai ser moleza. Boa sorte.
E antes que você fique com a impressão de que tratei o seu
problema com descaso, quero dizer que acho Atendimento tão ou mais
importante que Criacão numa agência que pretenda ser criativa.
Porque uma agência não é percebida como criativa pela
qualidade daquilo que ela consegue criar, mas sim pela qualidade daquilo
que ela consegue aprovar e veicular. Idéia boa, recusada, não
vale nada. Por isso, toda agência boa de criação é,
antes de tudo, boa de aprovação. Vou torcer para você
se tornar um grande profissional de atendimento, porque nós da
Criação precisamos muito dessa turma.
EVITE A TODO CUSTO:
Não faça tráfico de informações. Não
comente fora da gência nada que você ou um colega criou e
que ainda não foi veiculado. Isso é propriedade da agência
e do cliente. Nada de conversinhas de bar do tipo: "vocês não
imaginam o puta anúncio que eu fiz hoje". Bico calado até
o anúncio sair.
Aí, pode fazer quanto lobby quiser.
Alguns estagiários tentam compensar o pouco status inicial com
o tráfico de informações. "Faço estágio
na agência tal e fulano que trabalha lá disse o seguinte".
Alta traição. Um inocente comentário fora da agência
pode colocar campanhas a perder, prejudicar os clientes, concorrências
e prospects. Além do fato de que os ouvintes, embora possam se
aproveitar da informação recebida, vão pensar duas
vezes antes de contratar um boquirroto como você. Propaganda é
uma indústria e não está imune à espionagem
industrial. Não facilite.
DROGAS
Talvez eu esteja sendo muito ingênuo ou distraído, mas não
conheço muitos profissionais que façam uso delas.
O ambiente das agências hoje em dia é predominantemente careta.
Até o cigarro está diminuindo.
O volume atual de trabalho exige produtividade, profissionalismo, atletismo
intelectual. Chegar, ligar o computador e trabalhar. É um ritmo
forte que a droga, em que pese uma ou outra suposta "iluminada",
acaba prejudicando. A grande droga consumida nas agências hoje em
dia é a pizza para viagem.
DÊ CRÉDITO A QUEM MERECE.
Ter um texto enxuto é bom. Mas nunca nas fichas técnicas.
Se você foi ajudado, reconheça e registre. Você é
pequenininho demais para fazer inimigos.
Por incrível que possa parecer, sua sobrevivência vai depender
mais da sua reputação que da sua pasta. Já vi pessoas
perdendo a chance de conseguir emprego porque alguém na criação
levantou uma sobrancelha, ironicamente, quando o nome do candidato foi
citado.
Nenhuma pasta, por melhor que seja, sobrevive a um "Esse cara aí
é bom. Mas".
Existe uma teoria do Bill Bernbach, citadíssima, mas que sempre
vale a pena relembrar. Dizia o mestre:
"Se vejo uma pasta medíocre de um bom sujeito, gasto horas
com ele, explico que não vai ser possível, lamento profundamente.
Mas se vejo uma pasta brilhante de um mau-caráter, despacho o canalha
a pontapés. A vida é curta demais para perdermos tempo com
filhos da puta".
PODE ESQUECER A NOVELA DAS SETE.
Carreiras são como aviões: você precisa de mais força
na decolagem do que para se manter nas alturas. Ou seja, esteja preparado
para ralar muito nos primeiros anos.
ESTOU INDO TÃO BEM QUE RECEBI UMA PROPOSTA.
Não mude de agência pelo dinheiro. Só pense no fator
dinheiro depois que estiver convencido de que a mudança, por si
só, já vale a pena. E aí sim, negocie o melhor salário
que puder. Mais vale um estágio não-remunerado em agência
boa do que emprego em agência média.
O autor da frase "o dinheiro não é tudo" provavelmente
era um estagiário esperto.
Recebendo uma proposta, não blefe, não faça chantagens,
cabos-de-guerra ou joguinhos espertos com a agência. É verdade
que com uma proposta na mão você tem um trunfo - mas nos
outros 364 dias do ano você não tem. Não costuma ser
bom negócio colocar um diretor de criação contra
a parede.
E, se o seu ego permitir, não divulgue por aí as propostas
que você recusou. Por educação, nada mais. Você
também não iria gostar se alguém saísse espalhando
que não quis nada com você.
Resumindo todo esse papo de escoteiro: em propaganda você tem que
ser esperto. Nunca espertinho ou espertalhão.
SÓ ME DÃO MERDA. O QUE ELES PENSAM QUE EU SOU? ESTAGIÁRIO?
Você acha que a agência vai dar a campanha mais importante
de um cliente grande para um desconhecido qualquer?
Ainda que eles fossem loucos para fazer isso, seria um desrespeito para
com os clientes. Seus jobs irão ganhando complexidade e importância
à medida que você for inspirando confiança. E tem
mais: o que parece um osso muitas vezes é um filé. E um
filé muitas vezes é um osso. Depende do seu talento.
Qualquer boteco faz filé ao molho madeira. Mas poucos fazem um
ossobuco como o Il Fornaio d'Itália (mais uma vez, não estou
ganhando nada por este merchandising. Mas quem sabe assim o Vito me serve
uma porção mais caprichada).
UMA PALAVRA DE CONSOLO AOS ETERNOS RECLAMÕES:
Os médicos levam uma vida muito mais dura que você. Eles
estudam seis anos, depois mais dois de especialização. No
começo, só podem ficar assistindo às cirurgias de
médicos mais experientes, sem fazer nada. Depois, passam a colaborar
nas cirurgias dos outros, sem nenhum crédito. Depois, passam a
operar, mas vigiados de perto. E só depois disso, muitos e muitos
anos depois, é que ficam sozinhos diante de um pâncreas.
Tudo isso por um salário menor do que aquele que você estará
ganhando em breve, se tiver talento. E com muito mais plantões.
PALAVRAS FINAIS:
Todo job é osso, chato, difícil e complicado - até
você ter uma boa idéia.
Aí ele fica legal.
O AUTOR
Eugênio Mohallem nasceu em Itajubá, MG. Antes de se tornar
sócio e vp de criação da Fallon PMA, trabalhou em
agências como DM9, Talent e Almap BBDO- onde, por quatro anos, dividiu
a direção de criação com Marcello Serpa.
É um dos redatores mais premiados de toda a história do
Anuário do Clube de Criação de São Paulo,
com mais de 300 peças premiadas. Dentre elas, campanhas para as
sandálias Havaianas, Audi, Volkswagen, Samsung, Bayer, Apple, Mizuno,
Veja, Pepsi, Folha de São Paulo, Uol, Bol, Semp Toshiba, Estadão,
Notícias Populares, Sharp, Itaú Seguros, Valisère
e muitos outros.
Profissional de Criação do Ano 2000 segundo a APP é
um dos poucos criadores a ter recebido por duas vezes o disputado Prêmio
Caboré - Profissional de Criação do Ano, dado pela
Revista Meio & Mensagem.
Já ganhou 9 Leões no Festival de Cannes, incluindo o Leão
de Ouro "Double Check", para Volkswagen, 4 Profissionais do
Ano da Rede Globo, Prêmio Abril, além de diversas premiações
no Fiap, Art Directors, One Show, Londres, Clio e outros.
O manual foi escrito em 1997 por sugestão de José Carlos
Lollo.
Após fazer grande sucesso na Internet, o Manual do Estagiário
de Eugênio Mohallem foi transformado em livro pelo CIEE (Centro
de Integração Empresa-Escola), para distribuição
gratuita entre recém-formados. A edição, com capa
e direção de arte de André Laurentino, já
está esgotada.
|